DECISÃO<br>Cuida-se de Agravo apresentado por MBM SEGURADORA SA à decisão que não admitiu seu Recurso Especial.<br>O apelo, fundamentado no artigo 105, III, alíneas "a" e "c", da CF/88, visa reformar acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO, assim resumido:<br>REPETIÇÃO DE INDÉBITO C.C. DANOS MORAIS. DESCONTO EM BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. AUTOR QUE PRETENDE A CONDENAÇÃO DA RÉ À RESTITUIÇÃO EM DOBRO OS VALORES DESCONTADOS DE SUA CONTA CORRENTE SEM AUTORIZAÇÃO, A TÍTULO DE SERVIÇOS NÃO CONTRATADOS, BEM COMO INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. SENTENÇA DC PARCIAL PROCEDÊNCIA. APELO DO AUTOR. COMPROVAÇÃO DOS DESCONTOS NA CONTA DE TITULARIDADE DO REQUERENTE. RÉ QUE NÃO SE DESINCUMBIU DO ÔNUS PROCESSUAL CM DEMONSTRAR A EXISTÊNCIA DA RELAÇÃO JURÍDICA A EMBASAR AS COBRANÇAS. RESPONSABILIDADE OBJETIVA DA RÉ À DEVOLUÇÃO DOS VALORES INDEVIDAMENTE DESCONTADOS. DESCONTOS DE MÁ-FÉ E SEM QUALQUER JUSTIFICATIVA PLAUSÍVEL. FORMA DOBRADA DEVIDA, NOS TERMOS DO ART. 42, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CDC, INDEPENDENTEMENTE DO ELEMENTO VOLITIVO. ENTENDIMENTO EXPRESSADO NO INFORMATIVO Nº 803 DO E. STJ. DANOS MORAIS. REQUERENTE COM IDADE JÁ AVANÇADA E QUE FOI VÍTIMA DC DESCONTOS INDEVIDOS CM SUA CONTA CORRENTE. EXISTÊNCIA DE DIVERSOS PROCESSOS FUNDADOS NA MESMA COBRANÇA INDEVIDA. CONDUTA ILEGAL E REITERADA DE VIOLAÇÃO AOS DIREITOS DOS APOSENTADOS QUE DEVE SER COIBIDA. DANOS MORAIS DEVIDOS. QUANTUM INDENIZATÓRIO FIXADO CM PATAMARES RAZOÁVEIS. SENTENÇA ALTERADA NESTE QUESITO. JUROS DE MORA QUE DEVEM SER FIXADOS A PARTIR DO INÍCIO DOS DESCONTOS INDEVIDOS. CORREÇÃO MONETÁRIA INCIDENTE A PARTIR DO ARBITRAMENTO, NOS TERMOS DA SÚMULA Nº 362 DO E. STJ. APLICAÇÃO DOS ARTS. 389, CAPUT E PARÁGRAFO ÚNICO, E 406, CAPUT E PARÁGRAFOS, DO CÓDIGO CIVIL, COM NOVA REDAÇÃO DADA PELA LEI N" 14.905/2024, EM RELAÇÃO À INDENIZAÇÃO MATERIAL. SENTENÇA ALTERADA DC OFÍCIO NESTE QUESITO. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS SUCUMBENCIAIS. PRETENSÃO DE MAJORAÇÃO. DESCABIMENTO. VERBA SUCUMBENCIAL QUE DEVE SER CONJUGADA COM OS CRITÉRIOS DO ART. 85, §2", DO CPC, PARA SUA FIXAÇÃO CM PATAMAR RAZOÁVEL E PROPORCIONAL.<br>Quanto à primeira controvérsia, pelas alíneas "a" e "c" do permissivo constitucional, a parte recorrente aduz afronta e dissídio jurisprudencial, com fundamento nos arts. 926 e 186 do Código Civil, no que concerne à improcedência do pedido de indenização por danos morais, porquanto não se trata de dano in re ipsa e não houve comprovação de abalo ao crédito ou de efetivo prejuízo extrapatrimonial (fl. 303), trazendo a seguinte argumentação:<br>"Contudo, a recorrente foi condenada ao pagamento de indenização por danos morais em valor excessivo diante dos fatos narrados, vez que não houve eventual inscrição indevida nos órgãos de inadimplentes, conforme constou equivocadamente no acórdão recorrido." (fl. 293)<br>"No caso em testilha, não há elementos indicativos de que a cobrança tenha prejudicado a situação financeira da parte recorrida, visto que os valores cobrados por mês são ínfimos, bem como não há comprovação de qualquer situação de abalo psicológico decorrente dos fatos narrados, tampouco outros desdobramentos mais sérios como cobranças vexatórias ou negativação." (fl. 294)<br>"Assim, a simples cobrança, por si só, não configura nenhum abalo aos valores imateriais da parte consumidora a ponto de lhe garantir seja indenizado por dano moral." (fl. 294)<br>"Além disso, não houve a inscrição do nome do recorrido nos cadastros de inadimplentes, não havendo o que se falar em eventual comprometimento à imagem da parte recorrida no meio social, em termos de abalo ao crédito, tampouco qualquer tipo de abalo a sua subsistência." (fl. 294)<br>"Assim, a regra é de que o ofendido que pretende a reparação por danos morais deve provar o prejuízo que sofreu, o que não ocorreu no caso em testilha, pois a condenação ao pagamento de indenização por danos morais foi fundada em meras alegações, sem sequer haver a comprovação do dano, sendo que o julgador equivocadamente informou que houve abalo o crédito e que o presente caso versa sobre contratação de cartão de crédito consignado, o que não corresponde à realidade dos fatos." (fl. 300)<br>"Por estas razões, merece provimento o presente recurso para julgar improcedente a presente ação face ao dano moral, eis que não houve comprovação de qualquer abalo moral, de acordo com os arts. 926 e 186 do CC, tampouco houve o abalo ao crédito conforme constou equivocadamente no acórdão recorrido." (fl. 303)<br>Quanto à segunda controvérsia, pela alínea "a" do permissivo constitucional, a parte recorrente aduz violação aos arts. 489, §1º, II, III, IV, V e VI, e 492, do CPC, no que concerne à necessidade de cassação do acórdão recorrido e remessa dos autos à instância ordinária, porquanto a fundamentação para a fixação do dano moral em valor exorbitante não corresponde à realidade dos fatos (fl. 304), trazendo a seguinte argumentação:<br>"Caso Vossas Excelências entendam que o Tribunal a quo não analisou detidamente o caso dos autos, vez que a fundamentação para fixação do dano moral em valor exorbitante não corresponde a realidade dos fatos, requer a cassação da decisão recorrida, ante a violação dos artigos 489, §1º II, III, IV, V e VI e 492, ambos do CPC, com a consequente remessa dos autos à instância ordinária." (fl. 304).<br>É o relatório.<br>Decido.<br>Quanto à primeira controvérsia, embora o Recurso Especial tenha sido interposto pela alínea "a" do permissivo constitucional, não há qualquer fundamentação recursal a ela relacionada.<br>Por isso, incide a Súmula n. 284/STF, porquanto "é inadmissível o recurso extraordinário, quando a deficiência na sua fundamentação não permitir a exata compreensão da controvérsia".<br>Ademais, pela alínea "c" do permissivo constitucional, não foi comprovado o dissídio jurisprudencial, tendo em vista que a parte recorrente não realizou o indispensável cotejo analítico, que exige, além da transcrição de trechos dos julgados confrontados, a demonstração das circunstâncias identificadoras da divergência, com a indicação da existência de similitude fática e identidade jurídica entre o acórdão recorrido e o(s) paradigma(s) indicado(s), não bastando, portanto, a mera transcrição de ementas ou votos.<br>Com efeito, o Superior Tribunal de Justiça já decidiu: "Nos termos dos arts. 1.029, § 1º, do CPC; e 255, § 1º, do RISTJ, a divergência jurisprudencial, com fundamento na alínea c do permissivo constitucional, exige comprovação e demonstração, em qualquer caso, por meio de transcrição dos trechos dos acórdãos que configurem o dissídio. Devem ser mencionadas as circunstâncias que identifiquem ou assemelhem os casos confrontados, a evidenciar a similitude fática entre os casos apontados e a divergência de interpretações, providência não realizada nos autos deste recurso especial" ;(AgInt no AREsp n. 2.275.996/BA, relator Ministro Afrânio Vilela, Segunda Turma, DJEN de 20/3/2025).<br>Ainda nesse sentido: "A divergência jurisprudencial deve ser comprovada, cabendo a quem recorre demonstrar as circunstâncias que identificam ou assemelham os casos confrontados, com indicação da similitude fática e jurídica entre eles. Indispensável a transcrição de trechos do relatório e do voto dos acórdãos recorrido e paradigma, realizando-se o cotejo analítico entre ambos, com o intuito de bem caracterizar a interpretação legal divergente. O desrespeito a esses requisitos legais e regimentais impede o conhecimento do Recurso Especial, com base na alínea "c" do inciso III do art. 105 da Constituição Federal". (AgInt no REsp n. 1.903.321/PR, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe de 16.3.2021.)<br>Confiram-se também os seguintes julgados: AgInt no REsp n. 2.168.140/SP, relatora Ministra Regina Helena Costa, Primeira Turma, DJEN de 21/3/2025; AgInt no AREsp n. 2.452.246/SP, relator Ministro Paulo Sérgio Domingues, Primeira Turma, DJEN de 20/3/2025; REsp n. 2.105.162/RJ, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJEN de 19/3/2025; AgInt no AREsp n. 2.243.277/SP, relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Segunda Turma, DJEN de 19/3/2025; AgInt no REsp n. 2.155.276/SP, relator Ministro Teodoro Silva Santos, Segunda Turma, DJEN de 18/3/2025; AgRg no REsp n. 2.103.480/PR, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJEN de 7/3/2025; AgInt no AREsp n. 2.702.402/SP, relator Ministro Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, DJEN de 28/2/2025; AgInt no AREsp n. 2.735.498/MT, relator Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, DJEN de 28/2/2025; AgInt no AREsp n. 2.169.326/SP, relator Ministro Paulo Sérgio Domingues, Primeira Turma, DJEN de 27/2/2025; AREsp n. 2.732.296/GO, relatora Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, DJEN de 25/2/2025; EDcl no AgInt no AREsp n. 2.256.359/MS, relator Ministro Moura Ribeiro, Terceira Turma, DJEN de 21/2/2025; AgInt no AREsp n. 2.620.468/RJ, relator Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, DJEN de 20/12/2024.<br>Quanto à segunda controv érsia, incide a Súmula n. 284/STF, tendo em vista que a parte recorrente não demonstrou, de forma clara, direta e particularizada, como o acórdão recorrido violou o(s) dispositivo(s) de lei federal, o que atrai, por conseguinte, a aplicação do referido enunciado: "É inadmissível o recurso extraordinário, quando a deficiência na sua fundamentação não permitir a exata compreensão da controvérsia".<br>Nesse sentido: "Evidencia-se a deficiência na fundamentação recursal quando o recorrente indica os artigos de lei federal que teriam sido violados, mas não desenvolve argumentação suficiente a fim de demonstrar a inequívoca ofensa aos dispositivos mencionados nas razões do recurso, situação que caracteriza deficiência na argumentação recursal e atrai, por analogia, o óbice da Súmula n. 284 do STF" (AgInt no REsp n. 2.059.001/RS, relator Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, DJEN de 23/12/2024).<br>Confiram-se ainda os seguintes julgados: ;AgInt no REsp n. 2.174.828/DF, relatora Ministra Regina Helena Costa, Primeira Turma, DJEN de 27/2/2025; AgRg nos EDcl no AREsp n. 2.442.094/PR, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJEN de 6/12/2024; AgInt no REsp n. 2.131.333/RJ, relator Ministro Francisco Falcão, Segunda Turma, DJEN de 2/12/2024; AgRg nos EDcl no REsp n. 2.136.200/RJ, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 25/11/2024; AgRg no AREsp n. 2.566.408/MT, relator Ministro Otávio de Almeida Toledo (Desembargador Convocado do TJSP), Sexta Turma, DJe de 6/11/2024; AgInt no AREsp n. 2.542.223/SP, relator Ministro Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, DJe de 30/8/2024; AgInt no AREsp n. 2.411.552/DF, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, DJe de 3/7/2024; (REsp n. 1.883.187/RJ, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 14/12/2022; AgInt no AgInt no AREsp n. 2.106.824/RJ, relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, DJe de 18/11/2022.<br>Ante o exposto, com base no art. 21-E, V, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, conheço do Agravo para não conhecer do Recurso Especial.<br>Nos termos do art. 85, § 11, do Código de Processo Civil, majoro os honorários de advogado em desfavor da parte recorrente em 15% sobre o valor já arbitrado nas instâncias de origem, observados, se aplicáveis, os limites percentuais previstos nos §§ 2º e 3º do referido dispositivo legal, bem como eventual concessão de justiça gratuita.<br>Publique-se.<br>Intimem-se.<br> EMENTA