DECISÃO<br>Trata-se de conflito de competência instaurado entre o Juízo de Direito da 4ª Vara de Parnaíba - PI, suscitante, e a Primeira Turma Recursal do Juizado Especial Federal da Seção Judiciária do Estado do Piauí, suscitada.<br>O Juízo suscitado declinou a competência, consignando que o profissional responsável pelo exame técnico teria qualificado as patologias que acometem a autora como doença de trabalho, de modo que a competência para o julgamento da demanda seria da Justiça estadual.<br>O Juízo de Direito da 4ª Vara de Parnaíba - PI, por sua vez, suscitou o presente conflito, sob os seguintes fundamentos (e-STJ, fls. 295-296):<br>Embora conste no laudo pericial produzido no âmbito da Justiça Federal (ID nº 41598226, fl. 30), especificamente em resposta ao quesito de número 15, que a lesão apresentada pela parte autora decorre de acidente de trabalho, verifica-se que, no laudo pericial elaborado já no curso da presente demanda, perante este Juízo (ID nº 69983094), houve resposta expressa e circunstanciada ao quesito da alínea "e", indicando que a doença, moléstia ou lesão não guarda nexo com acidente de trabalho.<br>Nestes termos, nos moldes do parágrafo único do art. 66 do CPC, impõe-se a suscitação de conflito de competência, tendo em vista que a Justiça Estadual apenas detém competência para processar e julgar causas que envolvam acidente de trabalho, o que, conforme o conjunto probatório, não se verifica no caso concreto. Outrossim, a competência para o julgamento de ações relativas a benefícios previdenciários decorrentes de causas não laborais é da Justiça Federal.<br>A propósito, o Superior Tribunal de Justiça tem entendimento consolidado de que, na ausência de comprovação da natureza laborai do evento gerador da incapacidade, a competência para o feito permanece com a Justiça Federal.<br>  <br>Ademais, ainda que assim não o fosse, entende o STJ (STJ - CC: 204880) que a competência ratione materiae, em regra, é determinada em função da natureza jurídica da pretensão deduzida, sendo esta caracterizada pelo pedido e pela causa de pedir. No caso dos autos, porém, a parte autora postulou a concessão de benefício previdenciário sem referência a acidente de trabalho, tendo como causa de pedir, tão somente, o seu estado de saúde, conforme trecho da narrativa da peça vestibular (ID nº 41598226, à fl. 06): " ..  Cumpre salientar que em 2017 a Requerente foi submetida a tratamento cirúrgico de retinopexia com introflexão escleral e criopexia, e, no segundo semestre de 2019 começou a sofrer com as enfermidades mencionadas acima, conf. laudos, exame e atestados médicos em anexo, does. 03/05.  .. "<br>Ante o exposto, nos moldes do art. 66, II e parágrafo único, cumulados com os arts. 951, todos do CPC, tenho por SUSCITAR CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA determinando a remessa dos autos ao egrégio Superior Tribunal de Justiça, o que faço com fundamento no art. 105, I, da Constituição da República.<br>O Ministério Público Federal apresentou parecer às fls. 302-308 (e-STJ).<br>Brevemente relatado, decido.<br>Nos termos da jurisprudência desta Corte Superior, a competência para julgamento das ações que objetivam a concessão de benefício previdenciário relacionado a acidente de trabalho deve ser determinada em razão do pedido e da causa de pedir contidos na petição inicial.<br>Nesse sentido:<br>PROCESSUAL CIVIL. CONFLITO DE COMPETÊNCIA. AÇÃO DE ACIDENTE DO TRABALHO PROPOSTA PERANTE A 1ª VARA DA COMARCA DE ESTREITO/MA. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ESTADUAL. ART. 109, I, DA CF/1988.<br>1. Consoante assentado pelo Superior Tribunal de Justiça, com fulcro no art. 105, I, "d", da CF/88, merece conhecimento este Conflito, uma vez que ambos os Juízos, vinculados a Tribunais diversos, declararam-se incompetentes.<br>2. A Ação acidentária foi proposta perante o Juízo da Comarca de Estreito/MA, contudo o juiz declinou de sua competência para uma das Varas de Alexânia/GO, tendo em vista o endereço do autor da demanda. Entretanto, este Juízo também declinou de sua competência para uma das Varas Federais da SJDF.<br>3. O Juiz suscitante não aceitou sua competência, tendo em vista a competência da Justiça Estadual para apreciar e decidir o feito, conforme dispõe o art. 109, I, da Constituição Federal.<br>4. Com razão o Juízo suscitante, visto que a concessão de benefício previdenciário relacionado a acidente de trabalho deve ser determinada em razão do pedido e da causa de pedir contidos na petição inicial.<br>5. Conflito de Competência conhecido, a fim de declarar competente para processar o feito o Juízo da 1ª Vara de Estreito/MA.<br>(CC n. 173.830/DF, relator Ministro Herman Benjamin, Primeira Seção, julgado em 14/10/2020, DJe de 13/4/2021.)<br>PREVIDENCIÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. PEDIDO DE RESTABELECIMENTO DE APOSENTADORIA POR INVALIDEZ DECORRENTE DE ACIDENTE DO TRABALHO, DESDE A DATA DA CESSAÇÃO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ESTADUAL PARA PROCESSAR E JULGAR AS LIDES DECORRENTES DE ACIDENTE DE TRABALHO, ABRANGIDOS OS PEDIDOS DE RESTABELECIMENTO DE BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO ACIDENTÁRIO. ART. 109, I, DA CF/88. SÚMULA 15/STJ. PRECEDENTES. CONFLITO CONHECIDO, PARA DECLARAR COMPETENTE O JUÍZO ESTADUAL SUSCITANTE.<br>I. Conflito Negativo de Competência instaurado entre o Juízo de Direito da 1ª Vara Cível de Diadema/SP, suscitante, e o Juízo Federal do Juizado Especial Cível de São Bernardo do Campo - SJ/SP, suscitado.<br>II. Na origem, trata-se de ação de restabelecimento de aposentadoria por invalidez decorrente de acidente do trabalho, ajuizada contra o Instituto Nacional do Seguro Social - INSS, perante o Juízo Federal do Juizado Especial Federal de São Bernardo do Campo - SJ/SP, alegando a parte autora, em síntese, que, "foi concedida a aposentadoria por invalidez em razão de acidente de trabalho em 22/12/2012, sendo que o benefício foi cessado em 16/09/2019 (NB 5539105644). Após a data da cessação do benefício, o Autor se apresentou à sua empregadora, que o readaptou em atividade supostamente compatível. Ocorre (..) que diante das patologias que acometem o Autor, não há possibilidade de continuar as atividades laborativas (..) Por esta razão, o Autor não vê alternativa, a não ser o ingresso da presente demanda, com o fim de restabelecer a aposentadoria por invalidez, que foi cessada indevidamente pela Autarquia Federal". O Juízo Federal declarou-se incompetente para processar e julgar o feito, remetendo os autos à Justiça Estadual de Diadema/SP. O Juízo Estadual deu-se por incompetente e suscitou o presente Conflito Negativo de Competência.<br>III. Prevalece nesta Corte o entendimento de que "a competência para julgar as demandas que objetivam a concessão de benefício previdenciário relacionado a acidente de trabalho deve ser determinada em razão do pedido e da causa de pedir contidos na petição inicial. Isto porque, a definição do juiz competente é anterior a qualquer outro juízo de valor a respeito da demanda" (STJ, AgRg no AgRg no REsp 1.522.998/ES, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, DJe de 25/09/2015). Na mesma linha: STJ, REsp 1.655.442/MG, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, DJe de 18/04/2017.<br>IV. No caso, a causa de pedir e o pedido dizem respeito ao restabelecimento de aposentadoria por invalidez em razão de acidente do trabalho, do que decorre a competência do Juízo Estadual, suscitante.<br>V. Em consonância com os precedentes desta Corte a respeito da matéria, a competência da Justiça Estadual estende-se às causas de restabelecimento de benefício previdenciário decorrente de acidente do trabalho. Nesse sentido: STJ, CC 152.002/MG, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, PRIMEIRA SEÇÃO, DJe de 19/12/2017; AgRg no CC 141.868/SP, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA SEÇÃO, DJe de 02/02/2017.<br>VI. Conflito conhecido, para declarar competente o Juízo de Direito da 1ª Vara Cível de Diadema/SP, o suscitante, para o processo e o julgamento da lide.<br>(CC n. 172.255/SP, relatora Ministra Assusete Magalhães, Primeira Seção, julgado em 24/6/2020, DJe de 30/6/2020.)<br>Da leitura da exordial, verifica-se que a autora pleiteia a concessão de auxílio-doença com posterior conversão em aposentadoria por invalidez, não fazendo menção a nenhum acidente de trabalho.<br>Diante desse quadro, não resta configurada hipótese de aplicação da Súmula 15/STJ, que assim dispõe: "Compete a Justiça Estadual processar e julgar os litígios decorrentes de acidente do trabalho".<br>Assim, de rigor o reconhecimento da competência da Justiça federal para processar e julgar o feito.<br>Ante o exposto, conheço do presente conflito para declarar competente a Primeira Turma Recursal do Juizado Especial Federal da Seção Judiciária do Estado do Piauí, ora suscitada.<br>Dê-se ciência aos Juízos.<br>Publique-se.<br>EMENTA<br>CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. JUSTIÇA FEDERAL E JUSTIÇA ESTADUAL. INCAPACIDADE LABORAL. PEDIDO DE CONCESSÃO DE BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. PETIÇÃO INICIAL SEM NENHUMA MENÇÃO A ACIDENTE DE TRABALHO. SÚMULA 15/STJ. INAPLICABILIDADE. CONFLITO CONHECIDO PARA DECLARAR A COMPETÊNCIA DO JUÍZO FEDERAL.